Amanheço com o jornal dominical e sua pergunta do dia O que querem os jovens? Especialista em TV arriscam hipóteses sobre como chegar aos corações e mentes da geração 10, da segunda década do século 21. Há 20 anos, quando eu estava do outro lado da notícia (era fonte e não entrevistadora) ela fazia todo sentido. O rock pulsava, surgia da MTV, era inicio da cena eletrônica. Os movimentos de juventude viviam o seu último sopro. Fim do século 20.
Hoje ela morreu. E isso não é mal, é apenas um fato novo.
O conceito de juventude, com a sua semente plantada na revolução industrial e que ganhou forma na sociedade de consumo do pós-guerra, não existe mais. Ela foi protagonista dos movimentos de 68, da era hippie, do fora-collor e depois se pulverizou, se distendeu, até desaparecer.
A rotulação de um grupo por faixa etária ficou rasa para a sociedade de nicho. Em um mundo pós-global, o gosto é definido por inúmeros fatores e estímulos. Ser fã de HQ, séries, jazz, chorinho ou rap. Ser plugado ou praticar esportes radicais, ou as duas coisas ao mesmo tempo, não faz de ninguém mais ou menos jovem. A avó pode ter facebook e o neto passar o domingo escutando vinil que resgata músicas da belle epoque. Em um tempo onde as opções estão postas, as escolhas são fruto das oportunidades, da conta bancária e de aptidões subjetivas, que refinam o desenvolvimento do indivíduo.
Os ritos de passagem já não seguem um padrão. Estudar, fazer vestibular, diploma, primeiro emprego, família, aposentadoria. Essa ordem dos fatores se embaralhou a tal ponto, que nada mais é garantia de nada. E a crise da economia mundial não previu um plano para essa geração, que caiu no vácuo e tateia atrás de novos caminhos. A hora de sair da casa dos pais ou de ter filho, qual é? As possibilidades se alargaram e vemos exemplos de gravidez desejada ao 18 e outras adiadas para os 45 ou mais.
Ainda existe uma passagem biológica para novos prazeres e responsabilidade. O primeiro namorado, a primeira transa, a primeira camisinha estourada, o primeiro baseado, a primeira grana do mundo dos adultos. Dai a primeira conta, das muitas que virão. Depois que a infância fica na lembrança, as fases se misturam na dureza da vida competitiva. Vestibular para entrar no jardim de infância já não é mais exceção e a partir dai, o mundo de gente grande vira um futuro eterno e horizontalizado.
O fim da juventude também é fruto do invisibilidade da velhice. Podemos viver até 110 anos, o que determina isso é a sorte, os avanços da ciência, a vida que se leva. A velhice não tem mais data anunciada pra chegar, a infância se encurta, e nesse meio do caminho, a definição de juventude morreu. O fim do maniqueísmo da guerra-fria sepultou todo um mundo dicotômico, dos jovens ou não jovens. Ficou pouco demais.
A próxima lua
1 dia atrás
